Crucificação e Parada do Orgulho Gay: Insulto ou Socorro?

A encenação da crucificação de Jesus em plena parada gay causou muito mal-estar entre cristãos de diversas matizes. Uns consideraram blasfêmia, outros, apenas deboche, mas a maioria entendeu como uma provocação aberta aos cristãos.

Particularmente, não me senti nem um pouco ofendido ao ver um transexual pregado numa cruz. Afinal, Jesus não morreu somente por héteros. Na cruz, Ele Se identificou com os excluídos, os oprimidos, os marginalizados, e ao fazê-lo, assumiu em Si todos os nossos pecados, sejam de que natureza forem, inclusive sexual. Não há dilema humano que não caiba na cruz.

O que vi representado naquela cena foi o sofrimento de um segmento que tem sido vítima de nosso preconceito, nojo e ódio. O que deveria nos incomodar não é a cena em si, mas aquilo que ela pretende denunciar. E por mais doloroso que seja admitir, temos engrossado o coro de seus algozes. Nossos discursos inflamados, travestidos de piedade cristã, só fazem fomentar ainda mais a intolerância e o desamor.
O que para alguns pareceu um insulto, para mim soou como um pedido de socorro. Se a intenção era apenas provocar, eles conseguiram. Provocaram o que já estava latente em nós, nosso ódio inconfessável ou nossa compaixão.

Sobre a cabeça do transexual crucificado uma placa que dizia “Basta de homofobia”. Se isso não é um pedido de socorro, não sei do que se trata.

Próximo dali, um grupo de cristãos conscientes exibiam uma faixa que dizia “Jesus cura a homofobia”. Nem tudo está perdido. No meio desta loucura insana que se instalou em nossos arraiais, ainda resta alguns oásis de lucidez e misericórdia. Pena que seja uma minoria. E tomara que se torne uma minoria bem barulhenta.

A maioria está tão obcecada com a ideia de curá-los daquilo que reprovam como conduta, que não percebem o quão doentes estão.
Obviamente que políticos evangélicos que têm sido eleitos em cima desta guerra idiota vão aproveitar ao máximo o episódio para se auto-promover. Quanto mais animosidade entre cristãos e gays, melhor para eles. Só não vê quem não quer.

E Jesus, será que Se ofendeu? Ora, se Ele foi capaz de rogar perdão por aqueles que o crucificavam pra valer, duvido muito que não tenha relevado o que não passou de uma representação artística. Não creio num Jesus ranzinza, insensível e incapaz de compreender nossas idiossincrasias e incongruências. Creio que do alto céu, Ele olhou com misericórdia aquelas milhões de pessoas que desfilavam na Avenida Paulista como ovelhas que não têm pastor.

Quem sabe encontrou mais sinceridade em cima daquele trio-elétrico do que em cima de outros que desfilaram dois dias antes. Assim como encontrou mais fé num centurião romano idólatra do que nos religiosos escrupulosos que o seguiam. Imagino o quão ofendidos ficaram ao ouvirem dos lábios de Jesus: Nunca encontrei tamanha fé nem em Israel.

Que tal se em vez de ficar colocando lenha na fogueira de nossa nada santa inquisição, não alimentamos o que ainda nos restou da chama do amor?

Hermes C. Fernandes

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