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A dor não pega

Nos últimos dias, desafiaram a minha quietude as manifestações de apoio à jornalista Maria Julia Coutinho, a Maju. Sim, as de apoio! É que a sensatez e a sua ausência convivem lado a lado nas redes sociais, harmoniosamente, como as teclas brancas e pretas de um piano. E eu percebi, nesta orquestra solidária, que alguma coisa estava fora de tom, mesmo nos que se diziam não preconceituosos. A moça do tempo foi criminalmente ofendida, desrespeitada. Chamaram-na de tudo e até recorreram ao nosso passado colonial para barganhar a “compra” da jornalista. Sinal de que deixamos para trás os séculos de escravidão, mas os séculos de escravidão não nos deixaram. E “como a cor não pega”, a exemplo do que diz o cancioneiro popular, já em pleno século 20, fingimos que queremos amar a tudo e a todos sem distinção, neste século 21. E foi nas postagens de provas de amor incondicional à jornalista que, para mim, o discurso dos internautas perdeu a cor, amarelou. Fiquei a pensar sobre a maioria dos argumentos usados. Li repetidamente coisas do tipo: “Liga, não! Você é linda!”, “Você é elegante!”, “Maju, seu sorriso é maravilhoso, encantador!”, “Dá pra não gostar de uma pessoa tão carismática?”. Hein!?

O crime foi de racismo, gente! Os loucos não estavam chamando Maria Julia de feia, deselegante, desdentada ou antipática! Usaram de outros adjetivos, que prefiro não reproduzir, mas que se referiam ao fato de ela ser negra ou mulata. Então, pensei cá com meus botões mestiços: e se a Maria Julia, hipoteticamente, não tivesse nenhum talento especial, fosse feia, analfabeta e malvestida (qualquer semelhança com a maioria dos miseráveis deste País não é mera coincidência) não teria problema de ela ser ofendida e discriminada? Entendo que queriam dar um afago, um colo, mas, nesses casos, é de Justiça que se precisa. Ao vivo, na hora de agradecer aos elogios e repudiar as ofensas, Maria Julia também se dividiu entre “Casa Grande e Senzala”. Acabou optando pela “Casa-Grande”. Ela disse que era negra, mas que era competente, dedicada e fazia o trabalho dela com muito amor. Está tudo certo! A jornalista é tudo isso e muito mais, não é à toa que está no horário nobre e à frente de um dos telejornais mais vistos do País. Do mesmo modo, não é à toa que nossa televisão é europeia. Não só pela cor da pele de seus protagonistas, mas na beleza, nos dentes branquíssimos, nos cabelos lisos, nos heróis e heroínas, nas moças casadoiras e nos moços janotas, usando estas duas últimas expressões dos folhetins que fizeram a chamada literatura “sorriso da sociedade” do século 19, ainda marcada pela relação dos senhores e escravos. Mas não é sorrindo para a Maju que diminuiremos a distância entre os arranha-céus e as favelas. Discriminaram a sua cor e não outros atributos seus, Maju. Quem atacou, acertou na ferida em cheio, quem defendeu, infelizmente, errou no curativo. Avançamos e muito, sem dúvida alguma. Basta dar uma olhada em países africanos, como o Sudão, que está em guerra civil há anos e esquecido pelo resto do mundo, inclusive pelos Estados Unidos de Barack Obama, presidente negro. Quem dera, nas “#hashtags”, fôssemos também todos sudaneses, haitianos, etíopes etc. Mas estão tão distantes que nem a cor nem a dor deles nos pega. Tornam-se virtuais, não reais. E continuaremos digitando nosso amor em benefício de outras causas, ainda que as mais nobres, ainda que com argumentos tortos, ainda que numa internet sem lei.

Alexandre Leal
Jornalista
aleal@tvparanaiba.com.br


 

O Texto foi publicado no dia 08/07 no Jornal Correio de Uberlândia e fiz questão de reproduzir aqui! Ele aprofunda a discussão e nos dá uma visão dialética sobre o ocorrido.

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