A menina do supermercado

Estava eu fazendo compras no supermercado e já na fila do caixa, sinto um burburinho atrás de mim, uma criança me olha com um sorriso sapeca eu retribuo o sorriso e volto a resolver minhas compras. Isso vez ou outra acontece, alguém que me reconhece da tv e fica sem jeito de chegar, de conversar.
Era o caso, quando comecei a passar as compras, ouço um cochicho ainda maior, “…manhã total …”, foi a deixa para que eu pudesse entrar na história dizendo “opa! Estão falando de mim!” e sorri. Foi o bastante para a mãe da garota me contar que a filha tinha me reconhecido da tv, mas não tinha certeza se era mesmo o apresentador.

 

Sorri, retribuí o carinho e cobrei a audiência! “Ora bolas, continue com a gente!” … fui para o carro e elas continuaram ali, fiquei pensando sobre como esta rápida experiência pode ter afetado a garota, talvez sua mãe também. Mas especialmente a menina.

 

Lembrei-me que certa vez, com menos de dez anos, vi pela primeira vez uma vereadora, pessoalmente. Ela que já tinha aparecido na tv tantas vezes, agora estava alí na minha frente. Foi uma experiência que contei para muitos amiguinhos da escola e para parentes próximos. Posso dizer, que no universo daquela criança, aquele momento mudou minha vida, pelo menos reorientou as coisas.

 

Isso voltou a acontecer, quando aos 14 anos fui ao Rio de Janeiro em uma excursão para ser platéia do Planeta Xuxa! Sim, passei pelo menos três horas no mesmo estúdio que a Xuxa, nossa!!! Aquilo novamente reorientou minha vida. Eu a via desde os meus 5 anos de idade e agora estava ali, eu quase podia tocá-la. Ouvi a voz, sorri, tentei um aceno, não deu.

 

Além dela, o estúdio me chamou a atenção, os bastidores, aquilo que era cenográfico. Lá em casa, em Minas Gerais, na minha tv de tubo, só víamos uma parte do cenário, mas eu havia visto as costas daquele cenário, com as partes “feias”, as escoras, as fitas adesivas colando partes do desenho. Isso me encantou para sempre.

 

Aos poucos fui crescendo, fazendo faculdade, me arrepiando com os bastidores do Teatro, do palco, depois dos estúdios de tv onde comecei a trabalhar como “garoto propaganda” – acho que este título nem se usa mais. Um curso que levou ao outro e quando me percebi, já trabalhava com as câmeras, com os bastidores, com as notícias de ultima hora, com as transmissões ao vivo.

 

Posso dizer que me acostumei, mas nunca me permiti deixar de me encantar com a profissão. O encantamento, a surpresa, a magia, isso tudo continua vivo em mim e pretendo manter assim por quanto tempo eu conseguir. Foi nisso que me reconheci hoje, quando vi a menina no caixa do supermercado, querendo o sorriso do moço da televisão, que hoje, pelo menos hoje, fui eu.

 

.fernando prado
Uberlândia 23/02/2015

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