Com cinco anos de grupo, estávamos estreando “Manual de Mim” espetáculo solo que somava naquele momento o aprendizado da mímica corporal dramática, mímica total e teatro essencial; a obra contava com a minha dramaturgia que se servia de pequenos excertos de autores como Clarisse Lispector, Julio Cortazar e as regras do método de Descartes numa collage. Após a estréia tínhamos diversas datas já marcadas para a circulação do espetáculo quando me cai à mão um conto de Caio Fernando Abreu “Dama da Noite” e instantaneamente me apaixonei pela forma de escrita e como criador povoei meu imaginário de corpos que poderiam habitar este e – quem sabe? – outros contos do mesmo autor. Enquanto Manual de Mim estava em cena, demos inicio a leituras e reflexões dos contos do Caio, pesquisei um pouco do pano de fundo que o autor se apropriou para escrever, conversei com amigos dele, visitei alguns lugares em São Paulo freqüentados por ele, foi um processo de imersão que durou cinco anos. Até o momento em que decidimos por “A Beira do Mar Aberto”, essa decisão veio depois de muito ler e como – pensando decidimos – que este novo trabalho do grupo se conformaria novamente solo, o texto parecia caber como uma luva. Até aqui identificamos três etapas: a primeira de pesquisa, aquisição e leitura dos contos, a segunda de seleção do conto, análise e dissecação e a terceira etapa a de montagem.
Chamo a atenção do termo dissecação que etimologicamente na medicina significa separar as partes de um corpo ou de um órgão, tínhamos nas mãos um corpo, dissecamos até onde nossa inteligência e maturidade pode nos levar, ao chegar nos órgãos começamos outro processo que chamei de metafórico porque a partir daqui passamos a trabalhar com analogias e metáforas em cima do que já era por natureza poético e em certo grau subjetivo. Assim como Regina Muller em seu artigo Ritual, Schechner e Performance estávamos preocupados nessa pesquisa com a noção de persistência do significado da ação; e por pouco não nos perdemos nela, em verdade nos perdemos, mas com auxilio do performer Wagner Schwartz fomos encontrando outro espaço e outras luzes. A terceira etapa foi a montagem e talvez aqui resida toda a dificuldade do processo que levou quase um ano para concretizar. O texto do Caio Fernando fala em um relacionamento real demais para ser imaginário, por isso mesmo o é. Uma virtualidade na escrita nos levou a crer que tudo se passava na cabeça de um e não dos dois narrados no texto e portanto nosso tema deixava de ser o relacionamento, o casal e outras obviedades para se tornar o hyper-real e o virtual. Frente a este panorama apenas uma pergunta nos assustava “que corpo ocupa este espaço?”.
Manual de Mim havia sido tranqüilo na montagem pelo fato de já estamos estudando uma técnica milenar que é a mímica, seja através de professores, da artistas mambembes ou mesmo da observação de vídeos, disponíveis hoje no mercado. Tínhamos um corpo já moldado por uma técnica e a partir dali criamos cenas tendo o texto como companheiro, Denise Stoklos dizia “o ator não é ativo, o espaço é ativo e o ator entra em ação” se permite ser atravessado pela atividade do espaço, precisei enquanto ator entender um pouco do que ela dizia para conseguir alavancar o espetáculo e mesmo com todas as dificuldades do percurso ainda sim tínhamos a técnica da mímica e da pantomima não só nos auxiliando como servindo de muleta quando a criatividade e as soluções nos era distante. No Caio Fernando percebíamos que a destreza corporal (seria) uma possibilidade expressiva, mas não a única e nem a mais importante2, não tínhamos permissão para – através de gestual idade objetiva – explicar o que o conto dizia, nos parecia repetir a formula e não só isso, havíamos percebido que aquele corpo brasileiro com técnica européia, treinado três horas por dia durante um ano, tinha resultado em uma espécie de comunicação-forma – dentro do Sociedade da Cena – forma essa que não nos era interessante repetir por mero ócio criativo. Assim chegamos em uma questão que encontrei também em Patrice Pavis, Como fazer no caso de um espetáculo de dança ou teatro-dança no qual o gestual não acompanha um texto ou uma narrativa?3 Iniciávamos – sabendo, mas sem aceitar – uma incursão na cena contemporânea que vezenquando intitula-se dança contemporânea, teatro-dança, instalação, vídeo-instalação e outras performance arte. Após a criação de diversos núcleos de cena, partimos para a criação do cenário como subterfúgio para nossa inquietude, contemplando algumas obras do pintor holandês modernista Mondrian chegamos a um palco desmontável, em cubos que se desprendiam do centro criando ilhas, ora distantes ora próximas, revestidas de material branco para que pudéssemos contar com o recurso do vídeo, neste momento voltamos a acreditar no projeto – alterado inúmeras vezes – e antes que perdêssemos de vez a fé no que fazíamos um corpo virtual começou a ocupar o palco, as projeções pareciam comunicar com o que a cena requeria, uma relação que não acontece, que não se efetua mas que esta lá, podemos vê-la, fria, como um morto-que-ainda-anda. Este momento me remete ao diário da atriz Ana Cris Colla que escrevia sobre um dia de trabalho, Sábado resolveram jogar fora o sofá. Segunda a televisão. Quarta a noite, a geladeira. Hoje querem retirar todas as camas. Estão todos lá, entulhados no quintal da casa. Ainda não conseguiram se livrar totalmente.4
Estávamos tirando tudo para limpar a casa e reorganizá-la. Entendemos o trabalho do ator como aquele que é intermediário, aquele que está entre, a ficção e o espectador, aquele individuo que utiliza de sua expressão – corpo, voz e pensamento – para doar-se; assim seguimos convidando o artista Wagner Schwartz para nos orientar, no que ele chamou de “orientação dramatúrgica”, Schwartz arrumou a casa, tirou o excesso, aquilo que era demasiado romântico para o que eu propunha como ator e as sobras que o grupo também havia inserido, foi uma verdadeira faxina não só no corpo, embora o novo conceito de corpo que chegava – de Europa talvez? – se impunha como um réquiem-corporal de um ator cujo ultimo trabalho havia sido baseado em pantomima, mas também conceitualmente, discutíamos o agente, o performer, que imagem e as razoes que o levaram a gerar esta ou aquela imagem. Este é um momento crucial do trabalho onde o corpo tomou corpo e a obra se significou em obra, o grupo percebeu que estávamos construindo um espetáculo. DATA estreou em Dezembro de 2009, comemorando 10 anos do Sociedade da Cena, com assistência de direção de Ana Carla Machado.
... foi quando me deu muita vontade de escrever sobre isso aqui no Blog e se a vontade veio forte é porque talvez tenha realizado que estou realmente numa outra cidade. O que é estar em outra cidade? O que é visitar outra cidade? Postei ha 5 dias atras no twitter "estou na cidade maravilhosa!" dezenas de perguntas pipocaram "como está o Leblon?" "No Cristo, você ja foi?" "Teu reveillon será em copacabana?" Nao! nao havia feito nada disso, nao havia dado tempo nem de fazer a metade e me senti pressionado de ter que ter ido em todos estes lugares e tirado fotos e filmado e postado no twitter ou no facebook, meu Deus! Calma! Respira, você está em outra cidade, pronto, você ja está lá -aqui- mesmo que nao perceba, mesmo nao tendo ido ao Cristo Redentor. Comecei a perceber que estar em outro lugar é estranhar-se se sentindo estrangeiro, perguntar onde fica a avenida atlantica quando todos os demais estao carecas de saber onde é e sem esforço te indicam o caminho, "dobra a direita, segue reto até o tunel" pensei eu "tunel?" sim, esse vocabulário que nao é nem um pouco distante de mim ganha mais força em outra cidade, aqui é comum ter tuneis com sotaques e nomes famosos que se ve na televisao e no cinema; mesmo sem ter ido até lá, alguem me indica a Favela da Rocinha e meus olhos miram encantados aquele amontoado de barracos como quem vê uma atração dessa metrópole, coisa de quem é estrangeiro, sim estou em outra cidade quando nao consigo olhar a principio e ja me preocupar socialmente com tudo aquilo, ao contrario me encanto, é belo é feio é perigoso é grande, estou em outra cidade! Quando pego um taxi e pago 70 reais para chegar em Coelho Neto - nem sabia que existia, afinal nao está nos jornais da minha terra - e presenciar uma enchente dessas que figuram nos jornais da minha terra. Estou bem por aqui, ainda nao fui ao Cristo, ainda nao sei direito o que é o Pao de Açucar, embora tenha sentido tantos outros sabores e odores, assisti a uma queima de fogos inigualável, ouvi tantas historias diferentes sobre as mesmas coisas que eu estou sim em outra cidade, agora aqui na sala sentado olhando um pedaço da pedra quase vendo o suvaco depilado de Nosso Senhor penso que consigo me sentir mais em casa, tenho amigos por aqui que me recebem e me vem e me contas (...) tenho descobertas a todo tempo e mesmo se voltasse agora para Minas - onde se come mandioca e nao aipim - eu estaria contente por ter estado em outro lugar qu enao o meu, ter convivido com outras pessoas, ter visto outras paisagem e me apaixonado por mais pessoas, o mundo é grande e ha muito o que conhecer, agora é ler o GLOBO, dar uma volta na LAGOA e daqui alguns dias voltar para casa com a felicidade de quem esteve em outra cidade e encheu os olhos d`agua ao ver o mar.
.fê prado